Como se fosse um mago invocando as forças da natureza, um garoto, por volta dos dez anos, brincava na praia de um lago, enquanto seu amigo jogava com um brick game. O menino se deixava levar, dançava gritando o que vinha à mente e acabava cantando como um alucinado, inspirado pelas mais variadas fontes do lúdico, que se lhe apresentavam em poemas e gestos amplos em palcos delicados e desenhos animados japoneses. José, o amigo, entendia, no começo preferiu seu jogo, mas em dado ponto a performance do outro o impressionou, pensou que deveria ao menos aproveitar a oportunidade de perder esse tempo. E quando sua prima, Rosana, chegou com um parente distante dela, acabaram perguntando o que ele pretendia. Davi, o garoto mago, percebeu a primeira garota e se desconcentrou pelo aumento de inspiração. Condensou suas pretensões:
- Um feitiço. Estou conjurando poder para ser um guerreiro mágico. Está comigo, Antônio?
- Eu prefiro espaçonaves e dispositivos tecnológicos...
- Eu prefiro espadas... domar dragões e leões e ser rei.
- Eu queria ser mais forte – disse a desconhecida. – Eu já sou um pouco, mas...
– Ah! Essa é minha prima Loreta... – informou tardiamente Vanessa.
- Ah! Qual é! Como que ia? – disse o outro achando graça da crença de força enquanto a mocinha se indignava. – E você, Ana?
- Eu?! Ah – respondeu despreparada – Não sei. Uma fada ou...
- A princesa! – intrometeu-se Igor. – Você pode ser uma princesa, Clara...
Alexandra, pela própria fascinação infundada do outro, concluiu que tinha direito e postura de chegar a ser guerreira melhor e de mais prestígio e ficou irritada por ser menosprezada, a conclusão de que fora um erro esperar que não acontecesse transparecia em seu rosto.
– A gente tem que ser mais forte do que eles, não seja uma fada só para ser bonita... que diferença que faz? – disse angustiada. Igor, por sua vez, não gostou que sua condição de príncipe pudesse não significar nada. – Princesas poderiam ser os reis. Não precisariam de príncipes para dizer para elas que elas precisam deles. Temos que ser mais fortes! E gostar de qualquer cor!
- Só porque você não pode ser – disse João – que está dizendo isso.
- Por que eu não poderia?! – questionou Teresa indignada. Talvez não conversasse nada se não tivesse de discutir isso. – Se você mesmo acha que pode ser alguma coisa! Afinal, por que ele acha que pode ser rei e eu não?
– Você não pode ser “rei”; é uma garota.
- Você acha que o rei é o mais forte e eu aposto que venço a maioria dos garotos da minha idade. Posso passar a vencer se treinar, pelo menos.
- Mas as fadas parecem bailarinas, eu gosto de bailarinas... – Laís pensou alto, recebendo ainda alguma atenção.
- Reis e princesas não existem - esclareceu Íris. - E garotos não são de nada... Você consegue ser mais bobão! Se eu treinasse um pouco te bateria.
- Você tem inveja - retrucou Pedro.
- Quem você defenderia sendo uma guerreira? – perguntou Manuel intrigado.
- Todo mundo que encontrasse um bobão que nem você! - disse nervosa.
- Hum...
- Todo mundo que fosse proibido, impedido, que simplesmente não pudesse viajar pelo mundo por medo! Para que ninguém queira as coisas ruins por não poder ter as boas. Para ninguém ser questionado sobre o que quer, ao mesmo tempo.
- Hum... – murmurou Santiago concentrado. Depois de pensar um pouco proferiu entusiasmado: - Talvez eu tenha sido mau. Se você diz que pode ser uma guerreira tão boa... mostre. Talvez eu te chame. E a gente seja.
- O que?! – disse Bernardo cheio de desgosto.
- Vamos jogar e apostar então, com quanto louvor você pode ser um guerreiro...
- Guerreira - corrigiu, ainda que se desse a menosprezar guerras de verdade.
- Certo: se vence mesmo um de nós.
Passaram boa parte do dia competindo e se conhecendo. Riram juntos o bastante para poderem construir e proteger um reino juntos.
Segundo Augusto, no dia seguinte terminariam o pedido de poder para o mundo. Aquela noite tinham de aprender a cantar os versos mágicos, que anotara durante dois dias depois de um sono conturbado. “Cante o seu nome, cante uma voz, contando o seu nome e junte-se a nós. O tempo ouve nossa canção, enquanto é da gente ou não. Roçando-se ou longínquo, buscando onde, ou com que, se encontrar, recuando para quem sabe um dia ficar, os dois não se tocam se for machucar. Um passo que nem pressiona o chão, no próximo posso lhe estender a mão.
Canta vento com as paredes, tente três vezes para avançar. Circulando em volta do sol, a sombra da espada cresce e decresce, atrás de mim e à minha volta. Mergulhamos no baile doce do sangue dentro das veias.”
Se encontraram no mesmo lugar pela manhã e logo começaram o ritual espontâneo, liderados pelo garoto de molambos, folhas e lama pelo corpo. Correram e dançaram na areia e na água, mesmo sem compreender bem as bases do outro e alternadamente desconfiando realmente da seriedade daquilo, antes do círculo final onde Hugo afirmou que os passos haviam sido executados com perfeição e os coroou, com tinta guache e barro, como guerreiros portadores de poder de rei. Convencido de que a qualquer momento receberiam o controle sobre este.
Adelaide gostou de poder brincar assim antes de ir embora. Talvez com o poder pudesse voltar lá e até viajar mais distante. Quando precisassem defender qualquer coisa, poderiam chama-la, pois estaria cada vez mais forte e sempre distante da preocupação de algo como romance e outros compromissos comuns aos quais não dava importância. Tentaria até se despedir dos garotos também no dia seguinte.
Estanislau, ou seja, Roger, desacreditou a magia logo que chegou em casa e perdeu uma briga para o irmão mais velho.
Cecília achou a brincadeira divertida, mas não queria passar muito tempo preocupada com batalhas, treinos e rituais constrangedores.
Em casa, Joaquim tentava desenvolver seus poderes mágicos sintonizando-se com o mundo ao tocar uma flauta. Entre pausas, conscientes ou não, meditava sobre Rebeca ser sua respectiva rainha quando crescessem.
No dia seguinte, no entanto, ao invés de se despedir apropriadamente, Lavínia criou sem querer uma confusão por não suportar a pretensão de Jorge e dizer alto que Bento gostava de Beatriz, e que, nesse aspecto, era um saco assistí-los. Mesmo que André concordasse, apoiou Isaque quando este disse que o assunto não lhe dizia respeito, não tinha nada a ver com ela. Ísis respondeu que, se existia o incômodo, tinha a ver com tudo em volta. Miguel ficou calado, muito nervoso, e deixou Raul insinuar que ela gostava dele. Quando Estela foi contradizê-lo, furiosa, afirmando que sequer os conhecia, Rodrigo se entregou ao baixo artifício infantil repetindo que ela era invejosa e intrometida de modo que ninguém pudesse ouvi-la. Elora pôde apenas dizer com seu vocabulário insuficiente de criança o quanto os desprezava e que não queria conhecer nada mais de suas personalidades e pensamentos odiosos. Foi embora impedida de descobrir e se desculpar por ter falado só por não haver pedido de segredo.