sexta-feira, 13 de outubro de 2017

No três


Sincronicidade. 
Eu tenho um livro sobre isso, mas um dia empaquei numa parte e, deduzindo demanda de uma conversa com as vibrações do semiacaso, fui bem fiel à minha indisposição - ímpeto que soa como postura 'boato por boato: que seja mau contato, não só mal contado", como uma nota pessoal sobre as armadilhas do hype, uma delas contendo a ironia do hype do descaso (dois tipos de sapato que machucam os pés).

O caso é que desiludi: nem sou criativa, só juro que usei minha régua e dizem que eu fiz uma curva. Apologia à dúvida é apenas fiel ao lampejo que tive das ironias da vida, da inconstância de fase, de polos magnéticos não tão simples como "opostos" sugere fácil resumo. No entanto, me insinuaram que a dúvida é procrastinação ou tem posologia, do que não duvido. O desencantamento parece um encantamento ao avesso. Assim, conversar como se eu fosse sintonizar ainda é zuado - a ironia é que suponho que o problema seja essa presunção.

Reciprocidade do que importa mais ou menos: outra pessoa na dúvida. A dúvida de um serve para exaltar o outro; a saturação é um indício irrefutável. E eu realmente não explico direito: essas dúvidas às quais me refiro podem bem ser uma certeza de que está tudo bem (como um adivinho do que vai ser tudo) junto com a de que é melhor definir o caminho para isso - na minha conta elas não se contradizem, mas decerto não li as embalagens direito, olho uma e esqueço a outra. "Esmero leviano" parece genérico ao meu estado de languidez. Mas às vezes quando bate uma vontade e a gente não bate a vontade, vira carrinho de bate-bate que magoa. E se não lembrar a música que representa, não dá para cantar no karaokê. "Qual é a música?": a que eu cantarolar no primeiro insight, quando me der na telha chuva de granizo ou de confete.

Faço confete de granizo:

- Não entendi.

É irônico, só uma piada de ler no nonsense, tipo chocolate amargo. 

- Que garrancho.

Faz sentido às várias vezes. Cadê meu público?

- Só aparece aqui algumas vezes.

Vamos sincronizar: um, dois e...

domingo, 29 de maio de 2016

Backup fez relembrar "Polígonos" com data de criação da era #Fantasia #Mangá


Como se fosse um mago invocando as forças da natureza, um garoto, por volta dos dez anos, brincava na praia de um lago, enquanto seu amigo jogava com um brick game. O menino se deixava levar, dançava gritando o que vinha à mente e acabava cantando como um alucinado, inspirado pelas mais variadas fontes do lúdico, que se lhe apresentavam em poemas e gestos amplos em palcos delicados e desenhos animados japoneses. José, o amigo, entendia, no começo preferiu seu jogo, mas em dado ponto a performance do outro o impressionou, pensou que deveria ao menos aproveitar a oportunidade de perder esse tempo. E quando sua prima, Rosana, chegou com um parente distante dela, acabaram perguntando o que ele pretendia. Davi, o garoto mago, percebeu a primeira garota e se desconcentrou pelo aumento de inspiração. Condensou suas pretensões:
- Um feitiço. Estou conjurando poder para ser um guerreiro mágico. Está comigo, Antônio?
- Eu prefiro espaçonaves e dispositivos tecnológicos...
- Eu prefiro espadas... domar dragões e leões e ser rei. 
- Eu queria ser mais forte – disse a desconhecida. – Eu já sou um pouco, mas...
– Ah! Essa é minha prima Loreta... – informou tardiamente Vanessa.
- Ah! Qual é! Como que ia? – disse o outro achando graça da crença de força enquanto a mocinha se indignava. – E você, Ana?
- Eu?! Ah – respondeu despreparada – Não sei. Uma fada ou...
- A princesa! – intrometeu-se Igor. – Você pode ser uma princesa, Clara...
Alexandra, pela própria fascinação infundada do outro, concluiu que tinha direito e postura de chegar a ser guerreira melhor e de mais prestígio e ficou irritada por ser menosprezada, a conclusão de que fora um erro esperar que não acontecesse transparecia em seu rosto. 
– A gente tem que ser mais forte do que eles, não seja uma fada só para ser bonita... que diferença que faz? – disse angustiada. Igor, por sua vez, não gostou que sua condição de príncipe pudesse não significar nada. – Princesas poderiam ser os reis. Não precisariam de príncipes para dizer para elas que elas precisam deles. Temos que ser mais fortes! E gostar de qualquer cor!
- Só porque você não pode ser – disse João – que está dizendo isso.
- Por que eu não poderia?! – questionou Teresa indignada. Talvez não conversasse nada se não tivesse de discutir isso. – Se você mesmo acha que pode ser alguma coisa! Afinal, por que ele acha que pode ser rei e eu não?
– Você não pode ser “rei”; é uma garota.
- Você acha que o rei é o mais forte e eu aposto que venço a maioria dos garotos da minha idade. Posso passar a vencer se treinar, pelo menos.
- Mas as fadas parecem bailarinas, eu gosto de bailarinas... – Laís pensou alto, recebendo ainda alguma atenção.
- Reis e princesas não existem - esclareceu Íris. - E garotos não são de nada... Você consegue ser mais bobão! Se eu treinasse um pouco te bateria.
- Você tem inveja - retrucou Pedro.
- Quem você defenderia sendo uma guerreira? – perguntou Manuel intrigado.
- Todo mundo que encontrasse um bobão que nem você! - disse nervosa.
- Hum...
- Todo mundo que fosse proibido, impedido, que simplesmente não pudesse viajar pelo mundo por medo! Para que ninguém queira as coisas ruins por não poder ter as boas. Para ninguém ser questionado sobre o que quer, ao mesmo tempo.
- Hum... – murmurou Santiago concentrado. Depois de pensar um pouco proferiu entusiasmado: - Talvez eu tenha sido mau. Se você diz que pode ser uma guerreira tão boa... mostre. Talvez eu te chame. E a gente seja.
- O que?! – disse Bernardo cheio de desgosto.
- Vamos jogar e apostar então, com quanto louvor você pode ser um guerreiro...
- Guerreira - corrigiu, ainda que se desse a menosprezar guerras de verdade.
- Certo: se vence mesmo um de nós.
Passaram boa parte do dia competindo e se conhecendo. Riram juntos o bastante para poderem construir e proteger um reino juntos.
Segundo Augusto, no dia seguinte terminariam o pedido de poder para o mundo. Aquela noite tinham de aprender a cantar os versos mágicos, que anotara durante dois dias depois de um sono conturbado. “Cante o seu nome, cante uma voz, contando o seu nome e junte-se a nós. O tempo ouve nossa canção, enquanto é da gente ou não. Roçando-se ou longínquo, buscando onde, ou com que, se encontrar, recuando para quem sabe um dia ficar, os dois não se tocam se for machucar. Um passo que nem pressiona o chão, no próximo posso lhe estender a mão. 
Canta vento com as paredes, tente três vezes para avançar. Circulando em volta do sol, a sombra da espada cresce e decresce, atrás de mim e à minha volta. Mergulhamos no baile doce do sangue dentro das veias.” 
Se encontraram no mesmo lugar pela manhã e logo começaram o ritual espontâneo, liderados pelo garoto de molambos, folhas e lama pelo corpo. Correram e dançaram na areia e na água, mesmo sem compreender bem as bases do outro e alternadamente desconfiando realmente da seriedade daquilo, antes do círculo final onde Hugo afirmou que os passos haviam sido executados com perfeição e os coroou, com tinta guache e barro, como guerreiros portadores de poder de rei. Convencido de que a qualquer momento receberiam o controle sobre este.
Adelaide gostou de poder brincar assim antes de ir embora. Talvez com o poder pudesse voltar lá e até viajar mais distante. Quando precisassem defender qualquer coisa, poderiam chama-la, pois estaria cada vez mais forte e sempre distante da preocupação de algo como romance e outros compromissos comuns aos quais não dava importância. Tentaria até se despedir dos garotos também no dia seguinte.
Estanislau, ou seja, Roger, desacreditou a magia logo que chegou em casa e perdeu uma briga para o irmão mais velho.
Cecília achou a brincadeira divertida, mas não queria passar muito tempo preocupada com batalhas, treinos e rituais constrangedores.
Em casa, Joaquim tentava desenvolver seus poderes mágicos sintonizando-se com o mundo ao tocar uma flauta. Entre pausas, conscientes ou não, meditava sobre Rebeca ser sua respectiva rainha quando crescessem.
No dia seguinte, no entanto, ao invés de se despedir apropriadamente, Lavínia criou sem querer uma confusão por não suportar a pretensão de Jorge e dizer alto que Bento gostava de Beatriz, e que, nesse aspecto, era um saco assistí-los. Mesmo que André concordasse, apoiou Isaque quando este disse que o assunto não lhe dizia respeito, não tinha nada a ver com ela. Ísis respondeu que, se existia o incômodo, tinha a ver com tudo em volta. Miguel ficou calado, muito nervoso, e deixou Raul insinuar que ela gostava dele. Quando Estela foi contradizê-lo, furiosa, afirmando que sequer os conhecia, Rodrigo se entregou ao baixo artifício infantil repetindo que ela era invejosa e intrometida de modo que ninguém pudesse ouvi-la. Elora pôde apenas dizer com seu vocabulário insuficiente de criança o quanto os desprezava e que não queria conhecer nada mais de suas personalidades e pensamentos odiosos. Foi embora impedida de descobrir e se desculpar por ter falado só por não haver pedido de segredo.

sábado, 28 de novembro de 2015

New wave into lambada


Sugeriria que aquele sujeito ficasse para reparar suas curvas e trocar olhares e gestos ambíguos, mas nunca tinha se visto fazendo isso. Tinha receio de que a falta de desenvoltura chamasse atenção, parecia natural do titubear ser óbvio. 

As marcações no palco haviam sido trocadas. Trabalhava as informações de pelo menos quatro horas antes. Mas chegou mais tarde pelo lado direito; o plano era proceder em linha reta. Assim, ninguém exerceu sua postura irreverente à revelia do costume.

Não. Não sabia que aquele jeito tinha arranjado lugar em seus interesses, até porque tinha sentido pouco.

Outros não conciliavam o recebimento de olhares antes de sair mais do que teriam orgulho de ir sem essa dependência, se é que simplesmente não estivessem livres de pensar esses termos frágeis. A tentação de manipular reações a bel-prazer consumiu o fôlego da personagem sem nome, perdendo o timing do convite. 

Lufa-lufa dos ponteiros do relógio-roleta-russa; Qual a velocidade desmedida? 

Dada a velocidade do ponto A e B, calcule a trajetória (circular? elíptica?) ao ponto C no tempo mmc pelo mdc.

New age? Cordas de aço sobre bronzeado tropical; trip hop e new wave into lambada.

Separava a necessidade do corpo além da diferença ortodoxa de hormônios que não percebia. Ostentava a capacidade de não ser arrebatada por paixão da pregnância do par. A primeira parte, da cerimônia de celebração nos filmes, era muito curta, de resto, esforço e dificuldade não se aplicavam ao desrespeito ao paliativo, imiscuído no seu objetivo reduzido. Se debruçaria na reconstrução de seu juízo da vida alheia?

Vazamentos da pessoa gramatical:

O que você quer de mim? O que acha que pode "tirar" de mim? O que eu tenho? O que eu quero te dar? Foco no que quero de você é um enfoque. Ninguém sabe.

Na pressa que tinha pela insatisfação, a vontade estilhaçava-se na planilha. Mão na orelha, sentimento. Treinava um olhar quântico, que com ciência complexa demais tendia à magia para apreensão simultânea de todas as nuances de interação. 

Já só representava a firma da vontade, e reciprocidade virtual não catalizava; não lembrava-se dos princípios físico-químicos. Nem assumia a particularidade de sua vontade sobre a indiferença do outro. Devaneios e tédio nos olhos; todo o infinito de detalhes e a beleza sem charme antes de fazê-lo.

Queria realmente o doce ou olhava o pé-de-moça pelo que esperava fazer depois?

Essa falta de vontade era de uma coisa que tinha de fazer?
Foi fazer outra.
Mas era uma de cada vez?
Olhava sem lembrar-se da necessidade que supria, sentia a necessidade sem lembrar-se do que a supriria.

Eu queria desenrolar enquanto enrolava no corredor, pensando contas de vantagem.

E a vontade agora é do que não visualizei na hora. Sei o que queria porque não tenho de fazer o trajeto que não sei como faria.

Meu modelo vivo muda a pose: ângulos do fotogênico e meu olho ruim são variáveis decisivas. Desvelo minhas veleidades: 

Nada é tão volátil fora da dissimulação: não há necessidade de jogar impressões fora por serem tão aleatórios os parâmetros de cada um.

Mas eu não como nada disso. 

Os mais íntimos colocam a mão no seu íntimo, é pura intimidade-intimidação. Também devo oscilar. Repetiria deslumbramento recíproco, mas, deixando critérios de procedimento, troco pela morfina o rigor conceitual. De ponta cabeça, por travessuras dos simpatizantes do caos e o sono. Você, torne-se irresistível - diz? para que eu siga seu rastro atrás do meu calafrio.

Como um chato, tímido, seletivo, durante o close manifesta limites de um corpo menos redondo, deixando-se arranhar cordas mais musicais: "toque aquela perna...", "Ofereça seu lugar ao idoso"... (Expandindo o assunto por:) Vergonha de ser sincero, vergonha de ser educado; Fadiga.

Gestos afiados num pensar-sequência: 

Você não sabe nada de jogos teatrais...: "Não mesmo." Acontece que não era jogo teatral... era só de verdade... Você não sabe nada de verdade? 

Seria uma péssima ideia pegar o descarte, se na verdade simplesmente não precisasse dele. Quem não fazia feira pela pechincha? Espere. Talvez o caso realmente fosse o de que só estivesse tão largada para pensar no dito-cujo.

Se precisava ter certeza de que estava assim talvez fosse porque não queria atrapalhar o fluxo de romances verdadeiros de outros. Mas estava no mundo de pessoas entediadas, com tropeços naquela jurisdição. Não admitiria? Não era sua última opção. Porque era. A única. E era opção? Sorte, azar... ou distração. 

Não chamam para ficar, só acompanham até a esquina. E no parâmetro da educação patriarcal, a convenção das jogadas deixa crer no direito de ser difícil que outro não tem. Quando o fim do diálogo é barulho de pedras mais do que faísca.

Dietas e racionamentos sempre foram diferentes. O flerte oscilava quanto? Exceções desconcentram. Podia ligar para definir; uma questão de estopim. Ignorei a moça de saia e o rapaz da sexta. Mas eu sei por quê. Presunção sua.

Concluí seu ser "assim" porque era o que eu queria e na verdade não estava sendo. Na reflexão dos níveis de sedução, ninguém foi intelectual ou sedutor, confiando que talvez acontecesse qualquer um...

Tranquilidade e nervosismo; romance e luxúria em descompasso.

Eu edito...

Retórica pura: então edite em tempo real.

É raro olhar que percebe brincadeira com a sensibilidade aos remorsos num jogo ruim de improviso.

A sensação do clichê não satisfaz. Capa, casca e máscara de uma cabeça pesada. Que elementar; são tons pastéis. Ser a gente mesmo é o querer mais puro e simples.

Olhar quântico:

Eu saio eu, você você, e a gente fez isso?

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Inter-valo


A vista perdida na janela segurava o lápis, pousado sobre o papel rabiscado.

Uma história de mistério com fantasmas simpáticos, como no mundo pessoas oscilam entre o que podem ser, ainda era alvo de desconfiança. Não achava plausível que logo depois de morto alguém tivesse mais poder, muito menos para mais do que vingança da real fonte de dor. Outra conclusão parecia virose do imaginário muito popular no zapear da TV. Mas...

Lembrava-se de filmes, meditando sobre serem sonhados ou embasados no que na verdade apenas não conhecia; se histórias mais divertidas ou mais difíceis de refutar pela recorrência. Alguém que acreditasse na plasticidade de uma ou outra, lidaria com a realidade, independentemente ou não, bem sucedido ou não. Afinal, o fantasma podia ser como pessoas que precisassem lembrar do efeito da gentileza: gostava desse status sem perigo de convite para o 31 de outubro.

Coisa de escritores ruins, suspeitou que escrevesse apenas para pessoas de sua idade. Buscava público ou tema que o desafiasse. Mirando um público, este poderia gostar do produto, mas nem por ser alvo. Estudos da epifania delegavam a experiência para a contradição de um "isolamento ontológico heurístico" no papel, do qual ouvia falar numa palestra na tela, carregando a caneta atrás da orelha.

Como um artista com sua pasta de referências de imagens, fora preso com um livro, que não era tabuada, numa sala, para que os problemas fossem resolvidos no elevador. Devorado pelo autor que veneravam, reencarnado em seu corpo, seria extensão dos que ansiavam por esse brilhantismo tão desiludidos. Quis conversar com ele antes, já então era só guerra.

Tinha de vencer o jogo para poder dizer que não gostava, senão era condenação. Mas o jogo não tinha fim sem outra convenção de historicidade conjunta. Rito de passagem, acima de uma estética própria do cérebro para elas. Tendencioso rito. O depois era a mentira velada; aquela esquina não era continuidade do caminho no qual pisara alegre. 

Do desejo que vinha com o do caminho ao desejado, o que achava que sabia não estava funcionando e não achava que assim podia entender algum dia. Brincando com a moeda de que talvez soubesse e só não no momento.

Entusiasmo pelas oportunidades era o clichê dos tios. Mas ter tocado, as roçado, não parecia mais feliz do que o resultado, pela sensação inegável de cada uma. Tais oportunidades não eram de contatos. Nem andava livre do desejo delas.

Descobriu jornal mais cinema novo, folheando-o para sair das cortinas de fumaça. Ele mesmo escrevia pensando mais no artifício do antídoto do que no fato e seus precedentes e consequências. A parcialidade fazia com que lesse imparcial apatia. Lampejos iniciavam a tarde com janelas menos presunçosamente proféticas.

Com formação de que forma?, perguntava-se ao tentar adequar-se ao ritmo do relógio. Não se conformava com aquilo; só o deformava.

Formatação da performance da folha amassada.

domingo, 9 de agosto de 2015

Amêndoa


"Aqui se faz, aqui se paga" digitado na página de pesquisa. Então, era o que chamavam expressão homófona, pois não era o que entendia, mas convinha. Enfim, um trouxa falava de um problema potencial para quem ouvisse resolver. "Passa, senão problema."

Não gostava de poder morrer vendo problemas sem origens fortes de solução distante. Nem queria ter de ingerir arsênico por alguma surpresa. Contudo, se não estivesse a ponto de morrer não se moveria. Precisava de palco onde pudesse continuar depois do show.

Levantou-se para experimentar todos os quitutes que levara numa passagem atribulada no mercado. O primeiro tinha gosto de leite com pasta de dente infantil... O segundo tinha gosto da descrição da embalagem mesmo, comum a ponto de decepcionar. O terceiro tinha gosto de... Não soube porque uma coisa tinha de ter gosto de outra para que sentisse. Concluiu que inegavelmente tinham gosto de outras coisas, não importava o que houvesse experimentado primeiro. Ingredientes óbvios pareciam em lugares diferentes.

De resto, esperava que não merecesse seu amor por este ser agradável demais, e não castigo.

Tinha de tentar a verdade em voz alta numa oração que alcançasse algum juízo. Mas relutava em admitir um copo quebrado; a roupa molhada, o sofá manchado. Estirada no chão, quis diluir os dias ouvindo músicas que evocassem corrupção, desde regressão à ingenuidade e sua comparação com desvios acres por ecos debaixo d'água até o que realmente não conhecia.

Reset. Iminente morte pela noite. Escorria pelas mãos. Computador agressivo perguntava sobre iniciar-se normalmente sem um consenso sobre esse paradigma. O próprio perfume a incomodava. Parecia ter errado na frescura.

Óleo de amêndoas para a pele estriada, de varizes imaginadas. O perfume rosado a prevenia de sua inveja de quem conseguisse não desgastar tão rápido seus móveis e seus compromissos e controlar a vontade de jogá-los fora. Previa inveja de quem não pensava nisso. E de ser imune a ela mesma.

Estar distante do admirável, que a evitava declaradamente, diminuía seu remorso entre o quê deprimente de ver-se descansando sobre a mediocridade alheia enquanto descansavam sobre a sua. A dignidade era mais rara, mas não se submeteriam à sua elegância. Levaria um susto se realmente olhasse, desviou os olhos de alguns corredores que obrigassem-na a entrever a variação da sentença.

Poderia jogar-se nos braços de outra que soasse doentia, contemplando-a no elevador. Como se doente ela parecesse "mais viva ainda".

Não sabia se queria desculpar-se. Se queria que alguém mudasse de ideia, fosse facilmente convencido. Nem queria um mundo persuadido desse orgulho. Queria que compreendessem a demanda de ser muito mais honesto.

Testava uma ideia. Mudava de ideia ou não. Não ousava postar-se no próprio lugar. Era mais um momento no qual a genialidade latente podia mediocridade permanente. Desejava ver a mancha mudar o equilíbrio do quadro, mas se mostrava intacto nas evidências que colhia. O que cabia num dia, de dizer, de enlouquecer pelo contrário, desafiar mentiras a se revelarem? A falsa acessibilidade de e-mails e telefones, que ela lembrava menos como usava, ainda deveria ser utilizada. Sabia fazer tarde demais o receio pelos olhos e era só o que pretendia. Por sua vez, mergulhava nele, pois não os sentia.

Palavras infrutíferas pela tensão. Quem calava mais? Seus cortes estavam mal cuidados. Não admitia intermitências depois da espera e a hesitação se estendia por semanas. Era simples: assumir era mais difícil.

Inflamava.

Liga que fazia bolha explodia pegajosa.

Queria partir-se.

Cítrico sobre o aroma marrom das castanhas.

domingo, 26 de julho de 2015

Intempérie


Ele nasceu no meio e se alimentava do futuro que previa enquanto diminuía. Fazia desenhos detalhados da vazão dos movimentos antes dos quadros, então desgastados por intempérie. Que os sapatos mais bonitos machucavam não era verdade, mas aquele era bonito e machucava. Os pés temiam o contato gélido do chão.

Carvão que desistiu do verniz pelo preço na sacola, as estantes não estavam vazias pelos papéis acumulados num canto. Era parte do herói que não se contava. Esperava que outra existisse nas gavetas opacas à espera de sua curiosidade.

A abóboda de seu ser estava entediada de suas costas recurvadas. Distorcia a própria compreensão procurando calma. O deus ex machina da materialização se fez em forma de ruga na testa com demandas de renascer no meio.

Se era para levar tão a sério os mínimos contratempos da realidade, deveria ter surtado quando aventureiros o gritaram da janela, de um navio que deixou zarpar para seu paralelo seguir. E no mundo paralelo outra versão dele fazia o mesmo. Confundia as peripécias com as câimbras. Por volta de maio o vento batera a porta da astronomia e da engenharia mecânica, deixara ser astronauta para um irmão mais inteligente.

Chá de açúcar; não experimentou aquele sachê. Saquê da outra banda onde deixou seu juízo esparramado, encomendou cicatrizes de duração, para colecionar pontos de dilatação. Mas o correio também estava atrasado.

Saía mais sangue da customização. Seus bolsos mal costurados deixavam fichas saltitarem deparando as oportunidades virarem arrependimentos enquanto os arrependimentos viravam oportunidades sem poder acompanhar o movimento.

Seus ossos, no fundo da piscina dentro dele, eram atraídos por um lago sedimentado com desejos de novo rio.

Certa vez fora meio que se alimentava do verbo do amanhecer, era crepúsculo que atraía o cinza. Vazava vento que espalhava fumaças densas. Mas continuava opaco, pois soprava para longe. E sem se distanciar a tempo poderia abalar poeira de seu nariz e sua garganta. Quando esbarrou noutro corpo estação, clareou que era noite ao mesmo tempo; não se reliam; se repeliram sem se ver madrugada.

sábado, 6 de junho de 2015

Rosa hematoma


Pedi para ter um sonho que cutucou minhas costelas para girar meu tórax. Minha visão suspensa em delay: ao lado do caixão onde eu descansava, distraída ao anotar uma piada qualquer como uma pista que eu precisava, uma flecha, depois de me atravessar, apontava onde eu queria pousar. Acordaria para impedir que não se repetisse a descoberta tardia. Mas a linha de acontecimentos tinha detalhes mais atraentes. E segui cada um que conturbasse minhas vontades.

Intrigante nota para um diário público invisível: esquecia a regra básica do escritor de ficção de nunca transcrever o que conhece de realizado ao redor, como pleonasmo ou placebo. Lambi o vício de contar histórias de engolir enquanto ponderava não engolir as de contar, e as engulo até contá-las assim.

Minha visão suspensa em delay tinha deja vu. De dentro se conhece então quem assistia com atenção aquele que entrou. Havia para lembrar dessa beleza a distância abandonada ao inchaço que sempre achei que o perto ia durar. Eu lembro para perceber o perigo de estar fazendo o mesmo com o freguês da rotina que a gente se esbarra hoje, transeunte-não, volte aqui, ou me lembro porque está simplesmente perto? cada um dos dois? Na iminência de perceber a minha deixa de aproximação. Ele sai da sala. Alerta transeunte-não.

Eu saí do sonho de típica ambivalência das indiretas e do lado de fora corria atrás de outra pessoa no círculo do mundo que eu conheço uma pequena curva. Lá na frente alguém corria atrás de mim. Quanto mais perto dele, ele longe de mim e vice-e-versa. Eu dizia "Carmesim!".

Dor nos ombros de onde vinha. Eu era um cubo de gelo - termo manjado na não realidade que barra fazer poesia quando esta não se enfia pelo nariz e rasga as desculpas esfarrapadas. Os dados me jogaram e não fiz a escolha. Ele saiu enquanto eu hesitava no chiclete no meu sapato.

Precisaria deixar um toque que se fizesse presente no quarto, por onde apareceria de noite. Nem a flor que eu tirei do arbusto serviu para sacrifício. Não guardou as marcas que derrubei durante o dia. Meia-volta para buscar meu assédio pela rua quente. Que eu sei que falta saber o tipo de companhia que ainda se escolhe o sabor, para que cômodo me leva. Que eu quero me ajustar na mudança.

Ao sair, a morte parece o anfitrião mais gentil do amanhã. Meu corpo perto, eu vejo desgastar-se. E o medo se faz meu vestido de cores, tecidos, cortes e decotes variados. O caimento da tarefa na qual faço hora estendendo a volta para casa são coisas que eu tenho de pegar no chão. A próxima parece tão diferente quanto o horóscopo do jornal porque meu signo é outro.

Eu sabia, mas só fora da aula de tópicos de conselhos ruins; esteve implícito que a burrice que eu soubesse não era novidade. Nunca tinha sido questão a dificuldade quando corria o risco de me ver atrás do que não sabia antes. E ele saiu da sala quando parei ao lado do caixão criógeno defeituoso.
Eu tinha de cuidar de animar ideias, sem ruídos. Ele disse que ia viver os ruídos até o fim. Eu fiz mais um: "Vivas elas morrem". Sempre me embaraço antes de lembrar que não dá para saber se do belo casal entre os vultos a morte não é a moça bonita e a vida é o cadáver, aquele esqueleto que me seduz primeiro.

Guardei meu caixão dentro de mim. Numa balsa.

Entrar pelo cheiro de ferro do sangue na boca é uma música inédita na garganta que puxa as veias dos pés. O gosto de sangue era sujeira na minha mão que eu buscava. Plantando afago por um monte de gente-monte. Como o presente que leva a carícia de volta na febre que planta o vírus.

Só entrou no meu corpo quando disse que sabia que eu tinha controle da bagunça que fazia. Uma reverência de cada vez; uma de mil. Caso necessário, adicione-se o cheiro de baunilha e morango do seu perfume. Um fumo do qual solto fumaça ainda agora.

E eu precisava devolver aquele beijo distante. Fazer a bagunça de uma mordida que não conseguiria começar sem ser grande. De um lugar cheio de orgulho, fora de mim; o tanto que sinto o que sei fora do quanto sei o que sinto. O desafio também era apostar que por ali eu continuaria viciada por ser o pecador que se firma nas próprias dúvidas. Como as luzes apagadas na volta para casa. Quando começaria outro dia no fim, na minha troca de roupa. Sem. Nesse beijo distante. Que decepciona. E no qual senti seu fôlego devolver o medo que eu tenho dele em relevos. Relevos.

Quando reparei a primeira parte da conta tão lentamente, a bagunça já era grande, a calma estava escorregadia. Escrevi de caneta que eu queria reclamar no seu ouvido e arranhei meu rosto no batente da porta. Então quebrei louças lascadas para vestir o gosto dos cacos na língua e pensar o que não foi suficiente, mesmo do começo, desse meio.

Nenhum manipulador de linhas vermelhas queria que eu prestasse para guardar inibição. Mas que fosse como um gato preto que de bonito arranhasse e se achasse bom. Antes engoli uma sereia de água ardente que se contradiz.

O grotesco dessa moda é só uma parte pequena dele. Eu vou antes do que é a minha parte, é quando minha boca tem gosto de nada.

Tira esse granizo de confete da minha frente.

Por aprovações e desaprovações de preocupações, fecho os olhos com medo de titãs de carne azeda. Das viagens que mandei no meu lugar ainda lembrava a assombração; Ameaçavam soltar-se das correntes contando boatos de maldição de que não mais seriam capturados e contidos. Esquecera-me de conversar com estrangeiros mais do que organizá-los numa prateleira onde são minhas cristaleiras e eu deles. As pragas mais convincentes devoravam parte de mim, convidando-me a devorar a viagem que só eu conhecia das minhas. Mas ainda me tinha na boca magenta. Que eu era planta para carnívoro. Era carne para vegetariano. Sacrifício da flor que eu sou canibal.

Meus colegas entorpecidos invasores de fôlegos nunca foram tão fracassados quanto eu tenho de disfarçar. É falso diário, como as pinturas de tempos atrás do Egito. Não posso escrever coisas tristes e não posso deixar escrito nada que não seja verdade.

No discurso me pediram para não tirar tudo e ainda colocar uma coisa de cada vez num código pré-execução. Meu dedo deslizava sobre a paleta insinuando-se corajoso como um canalha de muitas desculpas. Por cima das cicatrizes tinha tinta de tatuagem que desfiei da minha saliva. E quando me pedisse para explicar o que queria realmente dizer, eu não sabia mais calma.

Agora as escolhas fracionadas que eu fiz, sem ver enquanto procurava do outro lado, talvez me ponham numa das brincadeiras de rabiscos de mim. E eu ainda não sei. Qual. Só sede da bagunça que não sei não pisar no estopim de fios secos. O fim é da sensação primeira que escoa. Não sei a explosão do estilhaço. Mas senti seu fôlego devolver o medo que eu tenho dele.