E naquela
paisagem jazia um vazio. E era como se houvesse falta, mas nada desaparecera.
Talvez não estivera lá na realidade. E no que não podia ver nem tocar o que
detinha seus olhos, não havia chão para a pessoa que olhava. O chão estava lá, sem porque ela
querer ou não vê lo. Talvez não quisesse ter certeza de que algo se desfizera... Porque
teria se desfeito lugubremente, num ente fadado ao pior. Mas não se desfizera.
Mudara. E das coisas que mudavam, entre as coisas mudando, estava o que já era seu ou seria seu. Mas ela não sabia o que era. Ainda não era. Talvez porque não
tivesse visto. Se não se vissem estariam num mesmo plano se estivesse certo que
se veriam... Esse plano existia? Sem como correr um ao outro. Sem como soltar-se de um cinto de
segurança e insegurança, ela estava presa numa paisagem vazia... Porque outra
coisa tinha o caminho dela também... O ponto não era o que soubera... Agora sabia.
E amanhã sabia outra coisa. Só que ainda não sabia...
Ainda sem
pensar em como se comunicavam a partir de suas celas, em por onde o som passava
de uma à outra, jogou conversa fora com semelhante hesitante, que mudava de
assunto sem tanta delicadeza dentro da própria cabeça. Esta dizia:
B1 - Sonhei
que conversava assim: pensava, mas enviava a mensagem em sons quaisquer que funcionavam
para explicar na minha voz, mandávamos o timbre com as nuances do momento de
quem pensava. Claro que ainda era preciso pensar, compreender o que se decide
enviar. Mas não esquematiza-la num código, sim senti-la, ouvir o resultado. O
vislumbre que trouxera serenidade. Assim sinto de novo que folhas em branco são
melhores. Às vezes é fácil ficar muito preocupado com o que se escreveu antes
e ficar olhando demais para trás enquanto a ideia genial está lá do lado com
receio de pedir licença para lhe cumprimentar.
Queria que
tudo o que dissesse fosse um espaço que levasse a um corredor cheio de portas. Como
um bom conto é um corredor cheio de portas, onde você encontra frestas ou ele é
a própria fresta por onde se olha com atenção e sente se as coisas com
intensidade. Essa intensidade é um corredor cheio de portas.
Mas estou num
corredor com a vista irritada tateando para voltar a ver e quando acontecer temo
me encontrar no meio do nada...
B2 - Ok.
Acho que se escusa de valer... não posso contar com você.
B1 - Não vou mentir
que não tendo a deliberadamente escolher a pior escolha. Deliberadamente não
saber.
B2 - Estou
com receio de pessoas que brincam com duas coisas, ou mais coisas, mal só porque
estão em suas mãos. E se elas caem e quebram largam de lado.
B1 - Acho que
deixaria elas de lado antes... Prediria o desastre já na escolha de uma e temeria
que piorasse a situação das coisas machucadas tentar qualquer coisa...
B2 - Aposto
que você seria uma delas...
B1 - Você
concorda que deveria me escusar de valer?! No equivaler ao caos talvez esteja
mesmo a tendência a escolher deliberadamente a pior escolha... Com esperança do
reverso que pode se dar baseada no fato de que nenhuma alternativa é só ela e nem
só dela, tendo as opções, quem escolhe não pode saber onde desembocam se...
B2 - Mesmo
quando um ponto a mais se sabe não se sabe nada afora o que parece mais
provável assim.
B1 - Difícil
é encaixar os fatos sem imaginar... E não ser radical demais na racionalidade por
fim confundindo-se num cara ou coroa. [...] Quem anda para e o caminho... ah, o
caminho existe... mas quem anda parou.
B2 - Quando
ela para o caminho não deixa de existir...? Se ele para ainda pode mudar de ideia, e
o caminho vai se atualizando, os outros caminhos se projetam entrecruzados num
ponto, mudando de forma análoga e incessante. E do fim, ao se projetar para o
começo, passa pelas mesmas dúvidas...? E o começo importa? E o fim...
B1 - Me dá um
conselho?! Antes de isso acontecer ou depois dizem que o melhor é voltar ao
plano das sensações e tramas... Mas ele não nos quer. Ou quer se faz você ter
uma sensação ao discutir comigo. É inevitável. Mas não gosto do jeito que penso
que ele está pensando agora. Se bem que quando se está inspirado e vê-se tudo
como bom, realmente um poder desse nível está nas mãos para compreender, fechar
e abrir bem os assuntos...
[...]
B1 - Queria
que tudo se encaixasse, todo mundo se explicasse, se entendesse e se ajudasse, mas
ainda estou tentando terminar aquele conto que vislumbra algum esclarecimento.
E está difícil. Não sou boa em pontuar. E assim não sou boa em concluir... Ou o
inverso. Sei lá.
B2 - Ok, se
você se abstém de valer, não posso contar com você.
B1 - É... Não ouso tentar convencê-la de outra coisa... O mundo
no qual estou presa dentro da minha cabeça é mesmo aquele templo naquele campo
cheio de pancadas que magnetizam qualquer corpo humano, de buracos de
armadilhas difíceis de interpretar realmente o quê por quem para/por que num
mundo mágico em que tudo dá certo não importa por onde e os sustos, dentro de
uma realidade que começa a ser compreendida entre essa possibilidade no plano
dos pés no chão.
B2 - Estou
saindo agora...
B1 - Só
porque pensou uma coisa não pode achar que ainda conhece o que deve ser feito
com ela quando a ideia esfria, ou porque outro pensamento frio amorna esse
quente e ainda assim você deixa se encontrarem... Não gosto de fingir que está
tudo certo. Se estivesse tudo certo poderia ser difícil, mas não desse jeito...
B2 - Você se
escusa de valer para enganar quem sabe que na verdade poderia se comprometer com “consertar”
as coisas. Digo no sentido de para você mesma e...
B1 - Pensei
que eu ia ajudar você... Gosto de conselhos... Não tenho nenhum para dar
hoje... Obrigado por me dar sem fazer doer...
B2 - Minha
intenção poderia ser essa, na verdade, agora que... Mas eu não sou eu né... Eu
sou o B1... (Numa hora dessas eu deveria ser o Abelardo II num papel...)
B1 - Não
importa o que eu possa parecer. Parece é e não significa que será. Não quero te
confundir. Eu não estou sabendo lidar com dilemas também. Eu posso não
conseguir, posso não ser tão útil, não é? Queria poder ser mais lá e aqui para... Se
fico angustiada e te angustio é só isso que você descobre, né? Ou não... Será
que esperava outra coisa? Mas é que eu não sei essa história, não posso dizer
realmente. Tenho que responder... Devia mesmo? Mas não posso perguntar. Tenho
vergonha de questionar os fatores e falo besteira enquanto tento controlar a
tendência inicial. Fico pensando demais em como é causa e como é efeito. Devia
responder que não sei e não ter vergonha de não saber... Vai ver não é o caso
de responder, mas ouvir... Ei, você já foi embora?
B2 - Não...
Estou aqui... está falando comigo a muito tempo?
B1 - Ah...
Hum... Só quero dizer que quase sei que meu trabalho não é trabalho e não é te
ajudar a não sentir. É te ajudar a sentir em mais direções, não menos. Só
não...
É que eu
tentei entender e fiquei triste por não conseguir. E não podia dizer, porque
seria como dizer duas vezes que não era comigo. E eu queria entregar tudo na
mão de todo mundo. Mas tudo na mão de todo mundo seria ela já saber o que
fazer. Ou não poderia segura ainda. Mas assim também já estaria em suas mãos, saber o que fazer seria pegar. Mas ninguém sabe ou ninguém pega. Só que sem o
“ninguém”, porque ninguém é todo mundo num momento uma coisa no outro outra. Não sei... Por onde será que a gente conversa? Você é...?
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