domingo, 3 de novembro de 2013

Vislumbres


E naquela paisagem jazia um vazio. E era como se houvesse falta, mas nada desaparecera. Talvez não estivera lá na realidade. E no que não podia ver nem tocar o que detinha seus olhos, não havia chão para a pessoa que olhava. O chão estava lá, sem porque ela querer ou não vê lo. Talvez não quisesse ter certeza de que algo se desfizera... Porque teria se desfeito lugubremente, num ente fadado ao pior. Mas não se desfizera. Mudara. E das coisas que mudavam, entre as coisas mudando, estava o que já era seu ou seria seu. Mas ela não sabia o que era. Ainda não era. Talvez porque não tivesse visto. Se não se vissem estariam num mesmo plano se estivesse certo que se veriam... Esse plano existia? Sem como correr um ao outro. Sem como soltar-se de um cinto de segurança e insegurança, ela estava presa numa paisagem vazia... Porque outra coisa tinha o caminho dela também... O ponto não era o que soubera... Agora sabia. E amanhã sabia outra coisa. Só que ainda não sabia...
Ainda sem pensar em como se comunicavam a partir de suas celas, em por onde o som passava de uma à outra, jogou conversa fora com semelhante hesitante, que mudava de assunto sem tanta delicadeza dentro da própria cabeça. Esta dizia:
B1 - Sonhei que conversava assim: pensava, mas enviava a mensagem em sons quaisquer que funcionavam para explicar na minha voz, mandávamos o timbre com as nuances do momento de quem pensava. Claro que ainda era preciso pensar, compreender o que se decide enviar. Mas não esquematiza-la num código, sim senti-la, ouvir o resultado. O vislumbre que trouxera serenidade. Assim sinto de novo que folhas em branco são melhores. Às vezes é fácil ficar muito preocupado com o que se escreveu antes e ficar olhando demais para trás enquanto a ideia genial está lá do lado com receio de pedir licença para lhe cumprimentar.
Queria que tudo o que dissesse fosse um espaço que levasse a um corredor cheio de portas. Como um bom conto é um corredor cheio de portas, onde você encontra frestas ou ele é a própria fresta por onde se olha com atenção e sente se as coisas com intensidade. Essa intensidade é um corredor cheio de portas.
Mas estou num corredor com a vista irritada tateando para voltar a ver e quando acontecer temo me encontrar no meio do nada...
B2 - Ok. Acho que se escusa de valer... não posso contar com você.
B1 - Não vou mentir que não tendo a deliberadamente escolher a pior escolha. Deliberadamente não saber.
B2 - Estou com receio de pessoas que brincam com duas coisas, ou mais coisas, mal só porque estão em suas mãos. E se elas caem e quebram largam de lado.
B1 - Acho que deixaria elas de lado antes... Prediria o desastre já na escolha de uma e temeria que piorasse a situação das coisas machucadas tentar qualquer coisa...
B2 - Aposto que você seria uma delas...
B1 - Você concorda que deveria me escusar de valer?! No equivaler ao caos talvez esteja mesmo a tendência a escolher deliberadamente a pior escolha... Com esperança do reverso que pode se dar baseada no fato de que nenhuma alternativa é só ela e nem só dela, tendo as opções, quem escolhe não pode saber onde desembocam se...
B2 - Mesmo quando um ponto a mais se sabe não se sabe nada afora o que parece mais provável assim.
B1 - Difícil é encaixar os fatos sem imaginar... E não ser radical demais na racionalidade por fim confundindo-se num cara ou coroa. [...] Quem anda para e o caminho... ah, o caminho existe... mas quem anda parou.
B2 - Quando ela para o caminho não deixa de existir...? Se ele para ainda pode mudar de ideia, e o caminho vai se atualizando, os outros caminhos se projetam entrecruzados num ponto, mudando de forma análoga e incessante. E do fim, ao se projetar para o começo, passa pelas mesmas dúvidas...? E o começo importa? E o fim...
B1 - Me dá um conselho?! Antes de isso acontecer ou depois dizem que o melhor é voltar ao plano das sensações e tramas... Mas ele não nos quer. Ou quer se faz você ter uma sensação ao discutir comigo. É inevitável. Mas não gosto do jeito que penso que ele está pensando agora. Se bem que quando se está inspirado e vê-se tudo como bom, realmente um poder desse nível está nas mãos para compreender, fechar e abrir bem os assuntos...
[...]
B1 - Queria que tudo se encaixasse, todo mundo se explicasse, se entendesse e se ajudasse, mas ainda estou tentando terminar aquele conto que vislumbra algum esclarecimento. E está difícil. Não sou boa em pontuar. E assim não sou boa em concluir... Ou o inverso. Sei lá.
B2 - Ok, se você se abstém de valer, não posso contar com você.
B1 - É... Não ouso tentar convencê-la de outra coisa... O mundo no qual estou presa dentro da minha cabeça é mesmo aquele templo naquele campo cheio de pancadas que magnetizam qualquer corpo humano, de buracos de armadilhas difíceis de interpretar realmente o quê por quem para/por que num mundo mágico em que tudo dá certo não importa por onde e os sustos, dentro de uma realidade que começa a ser compreendida entre essa possibilidade no plano dos pés no chão.
B2 - Estou saindo agora...
B1 - Só porque pensou uma coisa não pode achar que ainda conhece o que deve ser feito com ela quando a ideia esfria, ou porque outro pensamento frio amorna esse quente e ainda assim você deixa se encontrarem... Não gosto de fingir que está tudo certo. Se estivesse tudo certo poderia ser difícil, mas não desse jeito...
B2 - Você se escusa de valer para enganar quem sabe que na verdade poderia se comprometer com “consertar” as coisas. Digo no sentido de para você mesma e...
B1 - Pensei que eu ia ajudar você... Gosto de conselhos... Não tenho nenhum para dar hoje... Obrigado por me dar sem fazer doer...
B2 - Minha intenção poderia ser essa, na verdade, agora que... Mas eu não sou eu né... Eu sou o B1... (Numa hora dessas eu deveria ser o Abelardo II num papel...)
B1 - Não importa o que eu possa parecer. Parece é e não significa que será. Não quero te confundir. Eu não estou sabendo lidar com dilemas também. Eu posso não conseguir, posso não ser tão útil, não é? Queria poder ser mais lá e aqui para... Se fico angustiada e te angustio é só isso que você descobre, né? Ou não... Será que esperava outra coisa? Mas é que eu não sei essa história, não posso dizer realmente. Tenho que responder... Devia mesmo? Mas não posso perguntar. Tenho vergonha de questionar os fatores e falo besteira enquanto tento controlar a tendência inicial. Fico pensando demais em como é causa e como é efeito. Devia responder que não sei e não ter vergonha de não saber... Vai ver não é o caso de responder, mas ouvir... Ei, você já foi embora?
B2 - Não... Estou aqui... está falando comigo a muito tempo?
B1 - Ah... Hum... Só quero dizer que quase sei que meu trabalho não é trabalho e não é te ajudar a não sentir. É te ajudar a sentir em mais direções, não menos. Só não...
É que eu tentei entender e fiquei triste por não conseguir. E não podia dizer, porque seria como dizer duas vezes que não era comigo. E eu queria entregar tudo na mão de todo mundo. Mas tudo na mão de todo mundo seria ela já saber o que fazer. Ou não poderia segura ainda. Mas assim também já estaria em suas mãos, saber o que fazer seria pegar.  Mas ninguém sabe ou ninguém pega. Só que sem o “ninguém”, porque ninguém é todo mundo num momento uma coisa no outro outra. Não sei... Por onde será que a gente conversa? Você é...?

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