sábado, 2 de novembro de 2013

Ei... Viu?


Três corpos se deslocam no espaço distribuindo-se à procura de conforto ou do que isso seja. Não se questiona tanto se são humanos, um deles provavelmente não perceberia a discussão antes de pescar num tal papo-furado algo curioso, em vez disso se empenha em enfeitar as coisas, ao menos ao seu redor, com o que acha de mais bonito, reconhecendo as, como nos sons que instrumentos musicais podem fazer. Constroem seu nicho em meio a outras coisas. No que se movem em seus próprios objetivos pessoais se entregam à presença uns dos outros. Um deles, quem sabe o mais alto, de voz incitante, que andara de um lado para o outro hesitante, profere ao tentar acalmar se e voltar:
- “Meus olhos vislumbram entre as coisas... Estas brilham e ultrapassam o homem que com os olhos tenta dobrá-las. Se intenta pará-las torna-as rígidas e choca seus olhos até sufocar uma das direções e pode ficar cego ou morrer. Mergulhando como se estivesse passeando num jardim, num coral, a luz alcança o paladar.” Portanto... Não falarei nada. Não posso dizer mesmo que saiba. As palavras se perdem no caminho. Gesticularei que talvez acabe em versos fidedignos. Evitarei mal entendidos... [...] Há como ficar cego para sempre?! Eu quero ver... Poderia ser um fantasma, não ser visto e conseguir flutuar por aí...
Deixando de encarar cada uma das outras coisas calmamente, com sua atenção especial às que se moviam sem o vento, o terceiro corpo diz sereno:
- Você ficaria cego.
- Você sabe o que me impede de dizer? O que me faz confuso e me distancia de concretizar a verdade de modo que não escape? Como posso ser como desse modo semelhante a deus?
- Você ficaria cego tanto ao tentar como logo deixaria de ser... Até deus baixa a cabeça para ele mesmo... eu acho.
- Há como ficar cego para sempre? Eu quero ver... [...] Irei a um hospício voltar a poder olhando os outros loucos. Eu sei que todo mundo pode saber como todos são filhos de filhos de salmão e tubarão. O que um lado sabe o outro tenta engolir. Tudo que sei já sabia enquanto posso saber e tudo o que sei eu posso esquecer...? Há como ficar cego para sempre...?!
- Você poderia se lembrar disso, se esquecer de onde nasceu, do que viu, de como chegou aqui e cada esquina teria seu mistério de novo. Pois tinha acumulado energia ou cansaço? Estaria vendo os ritmos sem ter decidido a ordem das coisas pela ordem do que pouco se entendeu. Usando essa nova cidade para dela pular para o céu como havia se esquecido de fazer.
[...]
O mais serelepe não ganha o título à toa e se entrega a movimentos exaltados, às vezes misteriosos:
- Ei! Aonde você vai?! – pergunta o corpo sereno.
- Vamos antes que eles nos sigam!
E vão. Se não conseguem atravessar a rua e alguém os olha torto se incomodam com a invasão.

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